Arquivo da categoria: Neimar de Barros

NÃO TENHO TEMPO

 

 

Sabe, meu filho, até hoje não tive tempo para brincar com você.
Arranjei tempo para tudo, menos para ver você crescer.
Nunca joguei dominó, dama, xadrez ou batalha naval com você.
Percebo que você me rodeia, mas sabe, sou muito importante e não tenho tempo.

Sou importante para números, conversas sociais, uma série de
compromissos inadiáveis…
E largar tudo isso para sentar no chão com você… Não, não tenho tempo!
Um dia você veio com um caderno da escola para o meu lado. Não
liguei, continuei lendo o jornal. Afinal, os problemas
internacionais são mais sérios que os da minha casa.

Nunca vi seu boletim nem sei quem é a sua professora. Não sei nem
qual foi sua primeira palavra; também, você entende… Não tenho tempo…

De que adianta saber as mínimas coisas de você se eu tenho outras
grandes coisas a saber?

Puxa, como você cresceu! Você já passou da minha cintura, está
alto! Eu não havia reparado nisso. Aliás, não reparo em quase
nada, minha vida é corrida.
E quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora. E se o uso aqui,
perco-me diante da TV. A TV é importante e me informa muito…

Sabe, filho, a última vez que tive tempo para você, foi numa
cama, quando o fizemos!

Sei que você se queixa, que você sente falta de uma palavra, de
uma pergunta minha, de um corre-corre, de um chute na bola. Mas
eu não tenho tempo…

Sei que você sente falta do abraço e do riso, de andar a pé até a
padaria, para comprar guaraná. De andar a pé até o jornaleiro
para comprar “Pato Donald”. Mas, sabe, há quanto tempo não ando a
pé na rua? Não tenho tempo…

Mas você entende, sou um homem importante. Tenho que dar atenção
a muita gente. Dependo delas… Filho, você não entende de
comércio! Na realidade, sou um homem sem tempo!

Sei que você fica chateado, porque as poucas vezes que falamos é
monólogo, só eu falo. E noventa por cento é bronca: quero
silêncio, quero sossego! E você tem a péssima mania de vir
correndo sobre a gente. Você tem mania de querer pular nos braços
dos outros… Filho, não tenho tempo para abraçá-lo.

Não tenho tempo para ficar com papo-furado com criança. Filho, o
que você entende de computador, comunicação, cibernética,
racionalismo? Você sabe quem é Marcuse, Mc Luhan?

Como é que vou parar para conversar com você? Sabe, filho, não
tenho tempo, mas o pior de tudo, o pior de tudo é que…
Se você morresse agora, já, neste momento, eu ficaria com um peso
na consciência, porque, até hoje, não arrumei tempo para brincar com você.

E, na outra vida, por certo,

Deus não TERÁ TEMPO de me deixar, pelo menos, Vê-lo!

 


No Vento Livre do Seu Arbítrio

Quantos anos você tem?

 15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?

 Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.

 Neste mundo poluído, conturbado,

Passar dos 50 é fazer 13 pontos…

Quantos anos você tem?

Você tem idade para saber o que é certo

Ou você só tem idade para viver o que é errado?

Quantos anos você tem?

 Você tem idade para tomar vergonha

 Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?

Quantos anos você tem?

 Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar

Ou você só tem idade para entrar na onda?

Você é um rato ou um homem?

 Você prefere queijo ou amor?

Você está na ratoeira da massificação

 Ou está no vento livre do seu arbítrio?

Quantos anos você tem?

Você sabe que não existe presente?

 Que o “que” desta linha já é passado

 E o futuro é o “que” que não escrevi?

Quantos anos você tem?

 Você sabe que o presente não é deste mundo,

O presente é a eternidade vivida.

Quantos anos você tem?

15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?

 O que é que você já fez?

 Atravessou cego na rua?

 Deu esmola?

Pô, isso qualquer escoteiro faz!…

Quantos anos você tem de GENTE?

Você já despertou como GENTE?

 Você já andou como GENTE?

Ou até agora foi um instrumento de repetição?

 Você sabe o seu papel no mundo,

Ou é um espermatozóide crescido,

 Na eterna espera de um óvulo?

Quem é você?

Quantos anos você tem?

 Olha, só a sua consciência pode responder isso!

 Hoje, eu sei quem eu sou,

Sei minha idade,

Mas já fui um autômano como você,

 Felizmente, me encontrei,

 Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!

Renúncia

Eu queria uma vida assim com você,
Assim sem relógio e sem dedo em riste,
Sem lei e sem sociedade,
Sem satisfação e sem chau!
Eu queria uma vida assim com você,
Mas, felizmente, meu querer não é tudo
E meu poder é limitado.
Felizmente, minha palavra se esvai
E este papel se amarela.
Felizmente porque o bom é a espera.
A incerteza e o talvez são molas propulsoras;
Porque senão a alegria não teria razão
E o chegar não teria partida.
Eu queria uma vida assim com você,
Sem lenço e sem documento,
Mas, o bacana é o adeus, é a volta,
É o riso depois do choro,
É o hoje sofrido e o amanhã exultante.
O bacana é o crescente, a renúncia,
A noite mal dormida, a consciência,
O bacana é a luta, É saber que existe o perdão.
É a dúvida do “não quero”, mas quero!
Eu queria uma vida assim com você,
Mas dou graças por não ter,
Porque só assim eu posso escrever tudo isto,
Só assim eu posso medir-me,
Posso certificar a limitação humana.
Só assim eu sei que nada sou,
Que vivo capengando,
Carregando o que dá
E caindo com o que não dá.
Só assim eu sei o quanto lhe quero, quanto posso, mas o quanto não devo!


Eu, cheio de preconceitos, racista
Eu com falsos conceitos, neonazista
Eu detestando negros
Eu, sem coração.
Eu, perdido num coreto gritando, separação.

Eu, você, nós, nós todos cheios de preconceitos,
fugindo como se eles carregassem lodo,
lodo na cor, e com petulância, arrogância, afastando a pele irmã.

Mas estou pensando agora, e quando chegar minha hora?
Meu DEUS, se eu morresse amanhã de manhã,
numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas…

Se eu chegasse lá e um porteiro manco como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta?
E eu reparasse sua vista torta, igual aquela que eu critiquei,
se a sua mão tateasse pelo trinco, como as mãos do cego que não ajudei,

se a porta rangesse, chorando choros que provoquei?
Se uma criança me tomasse pela mão, criança como aquela que não embalei,
e me levasse pôr um corredor florido, colorido como as flores que jamais dei,

se eu sentisse o chão frio como dos presídios que não visitei,
se eu visse as paredes caindo como das creches e asilos que não ajudei,
e se a criança tirasse corpos do caminho,

corpos que não levantei dando desculpa que eram bêbados,
mas eram epilépticos; que era vagabundagem, mas era fome.
Meu DEUS! Agora me assusta pronunciar seu nome.

E se mais pra frente a criança cobrisse o corpo nu da prostituta que eu usei,
ou do moribundo que não olhei, ou da velha que não respeitei, ou da mãe que não amei?
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,

Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e deixei lá,
eu só dei desgosto, e no fim do corredor o início da decepção.
Que raiva, que desespero,
Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
o maldito funcionário, e até o padeiro, todos sorrindo não sei do que.
Ah! sei sim, rindo da minha decepção.
DEUS, não está vestido de ouro? Mas como? Está num simples trono?

Simples como não fui, humilde como não sou?
DEUS decepção, DEUS na cor que eu não queria…
Deus cara a cara, face a face, sem aquela imponente classe…..

DEUS simples…DEUS NEGRO.
DEUS NEGRO?
E eu racista, egoísta, e agora?

Na terra só persegui os pretos, não aluguei casa, não apertei a mão…
Meu DEUS, você é negro? Que desilusão!, será que vai me dar uma morada?,
será que vai apertar minha mão? Que nada. Meu DEUS você é negro?

Que decepção!… não dei emprego, virei o rosto, e agora?
Será que vai me dar um canto? Vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Porque você se fez assim? Porque se fez preto?
Preto como o engraxate, aquele que expulsei da frente de casa?

DEUS, pregaram você na cruz e você me pregou uma peça….
e eu me esforcei a beça em tantas coisas e cheguei até em pensar em AMOR….
mas nunca, nunca pensei em adivinhar sua cor.

Deus Negro